Outono imaginário

“Nina embora nova, por amores já chorou que nem viúva, mas passou, esqueceu.” Chico Buarque

Da minha bicicleta fito um casal jovial seguidos de uma criança montada em sua bicicleta verde-limão, aro 12. 

A moça, bonequinha de porcelana era dona de uma pele alva e de cabelos preto breu, esvoaçantes e desalinhados. Era delicada como um prisma de cristal, seus olhos de jabuticaba eram um pouco cabisbaixos, mas havia nele vestígios de docilidade. E seu sorriso exibia dentes estridentemente esbranquiçados.

Sentavam-se no banco de praça e viam o menino a se distanciar com sua bicicleta. O casal sorria, estreitavam os olhos e sorriam novamente, como se pudessem capturar àquela imagem para todo sempre.

No Recife não há outono, mas naquela tarde as folhas debruçavam-se ao chão e enquanto caiam ao relento, o casal entrelaçava os dedos.

A menina-moça dos seus dezessete/dezoito anos exibia suas pernas de graveto em um short curto, mas não transparecia nem um pingo de vulgaridade. 

Nina havia engravidado de um rapaz não muito respeitoso, que largará-a sem eira nem beira, à dura sorte. Quando faziam seis meses que o serzinho habitava seu útero de menina. 

Agora estava ali, vendo o serzinho crescido e cheio de vida, lambuzando-se na areia pomposa do parque. E o casal berrava: Mais rápido, mais rápido! Enquanto o menino acelerava sobre duas rodas. 

O garoto de certo não partilhava do mesmo tipo sanguino do homem com quem sua mãe se juntara. O homem alto, com óculos de grau e uma barba recém-nascida por fazer, o olhava com ternura paternal, enquanto ajudava seu meio-filho a engajar-se e deslizar sobre o escorrego. 

E enquanto o garoto fazia vai-e-vem no balanço colorido, o olhar do homem padecia matutante, como quem hipnotizara-se.

Os jovens espalhavam plenitude apenas pelo gesto banal de juntar as mãos e cruzar os olhares. E eu, narradora intrometida, fui atingida por uma ventania de um outono imaginário, um vento que trouxe consigo uma fragrância de amor consumado. 

No recife não há outono, mas as folhas caem. Naquela história não havia genética padronizada, nem tão pouco simetria, mas havia amor.

Luísa Guarda in Contos de parque - Outono Imaginário

Posted on Monday 6th February 2012 with 18 notes
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